Sobre a poesia das coisas

Escrevo porque sinto. Porque tenho momentos de alegria. De confusão. De tristeza. De reflexão. De euforia. De não saber quem sou. De saber exatamente quem sou. De querer saber quem me tornarei. Ou se já me tornei. Escrever, porém, é uma tarefa árdua. Quando o ato de colocar as palavras em uma tela ou um papel é, ainda, condicionado a um estado de espírito, raramente o texto sai com facilidade. Escrevo melhor em dias nublados. Por que?

Vivo desejando e vendo a poesia nas pequenas coisas. Sempre foi assim. Por que, então, deixar de enxergá-la agora? Frente ao panorama atual que vivemos, você pode dizer que é mais difícil ter o olhar afinado – ou animado – para tais coisas. Mas, replico que é ainda mais necessário saber tirar, destas pequenas coisas do dia a dia, a poesia. Afinal, vivemos, diariamente, praticamente o mesmo ritual. Fazemos os mesmos caminhos, com algumas exceções, vemos as mesmas pessoas, acordamos mais ou menos nos mesmos horários.

É a observação a mola mestra da vida. A poesia das coisas pode não ser o mote principal da vida, mas deve nos mover. A rotina não precisa ser um terror. Nela também há beleza. Basta querermos. Soa clichê, como a própria rotina? Sim, pode soar. Mas, a trivialidade tanto pode ser normal, como o próprio conceito implica, quanto encantadora.

Quero viver uma vida nem tão linear. Acho que este é o desejo da maioria. Porém, há de se convir que a sequência repetitiva da vida é a realidade, também para essa maioria. Mas a rotina não precisa ser previsível. É neste percurso que a jornada se faz. Na forma como escolhemos enxergar este caminho. Reclamando, afogamo-nos dentro de nossa própria existência. Não vemos o belo. Por isso, é preciso sorrir para a singela simplicidade das coisas. Procuremos as pequenas brechas luminosas em meio à repetição. E escrevamos, ainda que mentalmente, a poesia da vida.

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Fingir que não dói

“A saudade é nossa alma dizendo para onde quer voltar” (Rubem Alves)

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Sobre Guimarães

Eu ia triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais-de-trem…

Guimarães Rosa

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Sobre o poço

Quando se chega ao fundo do poço?
Será o fundo do poço quando não se consegue dizer o que pensa?
Ou será o fundo do poço quando deixamos de pensar?
Viver com um nó na garganta, será o fundo do poço?
Ou o fundo do poço acontece quando se desfaz esse nó?
Será que, no fundo do poço, existe um eco?
Ou será o próprio fundo do poço ouvir esse eco todo o tempo?
Amigos existem no fundo do poço?
No fundo do poço quem sabe eles também estão…
Já imaginou se o mundo inteiro está no fundo do poço?
Ou será que, do fundo do poço, não se vê o mundo?
Uma lágrima verdadeira ou um falso sorriso:
Qual te deixa mais perto do fundo do poço?
Afinal. Como saber quando se atinge o fundo do poço?
Será quando você pensa que todos estão neste poço?
Dá pra tomar um impulso, do fundo, do poço?
No fundo, eu poç(ss)o.

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Sobre o de repente

De repente não dá mais tempo de fazer aquela surpresa. Não dá mais pra mandar aquela mensagem, que deveria ter sido espontaneamente enviada com os dizeres “Eu te amo”, “Me perdoe”, “Você é muito importante” ou “Estou com saudades”. Não vai dar mais pra agradecer ao outro pelo companheirismo nos momentos difíceis. Não vai adiantar parar de focar nos defeitos e no que havia de ruim e pensar em tudo de bom. Em todas as qualidades. No carinho. No amor. Nas risadas dadas. Na falta de cobrança de melhores perspectivas. Na paciência.

De repente a distância vai tornar mais difícil lembrar das covinhas no rosto, do jeito que os olhos se fechavam quando sorria, do toque de esperança e de força nos momentos ruins. Não vai ser possível planejar um encontro especial. Aquele momento único: Simples, mas incrível, porque teria sido pensado para aquela pessoa.

De repente vai faltar aquele número na agenda para desabafar. Para reclamar da vida, compartilhar uma piada ou só falar um oi. Não se preocupe, você vai sobreviver. Todo mundo sobrevive. De repente é melhor mesmo não pensar em tudo o que poderia ter sido feito.

De repente não foi tão de repente assim. Mas já não vai adiantar perceber.

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Sobre o brilho

Já não aguentava mais como outrora. De repente as coisas na vida haviam se tornado de certa forma pesadas; o ar já não era mais tão leve; a sombra não era tão refrescante; o sol, sempre muito forte; os ombros não suportavam tão bem a carga neles depositada. Dela e dos outros.

A dificuldade, também considerada um tendão de Aquiles, era justamente a de estar sempre disponível para quem precisasse. De ter sempre uma palavra amiga, de conforto; de ligar, querer saber. E se deixar de lado. Nem sempre recebera de volta as perguntadas destinadas àqueles. “- Tudo bem?” “-Não, não está, estou passando por um problema”… E por aí ia. Ouviria, consolaria, ajudaria no que fosse possível. Mas raramente ouviria de volta “E você?”.

Cuidava dela também, e, em geral, não precisava dos outros. Estava acostumada com as ausências. Mas, os ombros… ah! Esses pesavam. Eram muitos problemas para administrar, muitos amigos por quem perguntar, muita gente para não deixar para trás. E, aos poucos, ia se deixando, se afundando nas atribuições da vida, quase sempre tão descoloridas.

Os amigos sucumbiam frente às dificuldades no caminho. Não suportavam o peso. Sentia-se sozinha, mesmo cercada por pessoas queridas. Estava rodeada por ausências. Pela ausência de brilhos, ausência de almas plenas, ausência de humildade, ausência de amor próprio, ausência de amor ao próximo, ausência de cores. As pessoas costumavam cinzas, com raríssimas exceções, e ela não queria ficar assim.

Então fazia de seus ombros um caderno de colorir. Pintava suas dores e  suas ausências… E seguia brilhando.

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Sobre espaços indesejáveis, de novo

Há que se respeitar a distância do outro.
E, com o passar dos dias,     d   i     s       t         a           n            c               i           a.

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