Sobre compreender

Julgar é uma das coisas mais difíceis que existem. Isso porque a gente nunca vai saber o que se passa dentro do outro. Como ele vê a vida, como lida com as pessoas. Somos todos diferentes, então é sempre muito complicado se colocar no lugar do outro e – ao menos tentar – pensar sob a ótica ‘alheia’ (nem tão alheia assim). Então, estamos sempre correndo o risco de sermos intolerantes.

Somos intolerantes quando reclamamos algo com o outro de uma forma descompensada, brigamos, somos agressivos, e não pensamos que, para este alguém, aquilo talvez não tenha importância alguma. (E que, portanto, ele não fez por mal); Somos intolerantes quando olhamos o outro com maldade, sempre calculando que determinadas falas e ações carregam sentidos ruins; ou quando só pensamos no nosso lado em qualquer situação. Somos intolerantes, enfim, quando achamos que só o nosso jeito é o certo.

A diferença é uma dádiva, mas também uma dificuldade nas relações humanas. Até mesmo porque se colocar no lugar do outro exige certo desprendimento daquilo que julgamos certo/errado, ou até mesmo de mágoas; nem sempre (quase nunca) é fácil descer do degrau da tristeza/chateação e tentar entender o porquê daquilo ter acontecido, antes de tirar qualquer conclusão. Mas, é necessário.

Quando nos colocamos no lugar do outro, tendemos a ser mais justos. Tendemos, inclusive, a detectar melhor também as nossas falhas no processo. Quantas vezes não paramos para refletir, com a mente mais calma, e percebemos que errados fomos nós?

Nos colocar no lugar do outro não significa passar pela existência engolindo tudo, sendo sempre compreensivo. Isso adoece. Significa, simplesmente, tentar entender o outro. Pensar duas vezes antes de reclamar, e quatro antes de brigar ou ficar magoado com alguém. É exercitar a compreensão de que somos diferentes. É entender que ninguém tem que adivinhar se você é prático, se é romântico, se tem pavio curto, se é calmo demais, se é distraído, se está irritado em determinado dia etc. É, enfim, viver com mais leveza.

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Sobre escre(vi)ver

Quando eu era pequena, anunciei que seria poeta. Poeta não, poetisa. Era o que eu falava pra todo mundo que me perguntava. Tudo porque um belo dia acordei e li os seguintes (e muito complexos rs) versos:

“Eu queria ser poeta
Mas poeta não posso ser
Pois poeta pensa em tudo
E eu só penso em você”

Esse desejo ficou no passado. Nunca escrevi versos, e acho incrivelmente difícil sequer pensar em escrever algum. Admiro muito os poetas. E também por isso estou sempre devorando versos escritos pelo mundo afora. Escrever poesia é tão incrivelmente complexo quanto traduzi-las. (Experimentem ler uma poesia na língua original e em sua tradução sempre que puderem. É fascinante! Imagine manter o sentido, a métrica, a rima, ao passar as palavras para outro idioma?!)

Escrever é, de certa e de toda forma, uma representação do viver. Na escrita, estamos sempre apagando, recomeçando, reinventando, pesquisando, aprendendo. Viver não é parecido?

Recomeçar é necessário, praticamente o tempo todo. Às vezes, recomeça-se algo da mesma forma. Recomeçamos nossos dias, nossa rotina, sem mudar muita coisa no geral. Mas, a cada dia, recomeçamos. Em outras vezes, é preciso recomeçar totalmente. Recomeçar a compartilhar sua vida com alguém, ou o contrário; recomeçar a fazer uma atividade física, a se dedicar a algo, a estudar; enfim. A narrativa, assim como a vida, é feita de recomeços. Se não fossem eles, seria monotonia. Quem leria?

Na escrita, apagamos uma linha, uma frase, uma sentença. Por cima, escrevemos outra. Mas, da mesma forma que na vida, o que outrora foi apagado, ainda assim foi escrito. Concretizado. Porém, fica uma estranha sensação de que recomeçar, no papel, é sempre mais fácil.

Na vida, os registros que queremos ou precisamos deletar/reescrever têm movimento, cor, cheiro, som. A lembrança é muito mais tangível do que a linha apagada. O que é dinâmico, o que é animado – e não inerte -, é mais difícil de se reescrever. Mas não impossível.

Nos versos que nunca escrevi, com certeza recomeçaria muitas vezes, como na vida. Quase sempre, esse novo ponto inicial – (não parece um pouco paradoxo?) – no que chamamos viver assusta, paralisa. Mas é a partir dele que criamos movimento. Aquilo que vai ficar, que vai nos preencher, que vai nos animar, no sentido de vida da palavra. Ainda que, após um tempo, decidamos ou precisemos partir de um novo ponto.

Porque a vida, assim como a escrita, é isso. É se reinventar. É querer escrever versos, mas acabar escrevendo prosa da mais simples. E, ao invés de apagar ou desistir de tudo só porque não sucedemos em algo… recomeçamos.

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Sobre a poesia das coisas

Escrevo porque sinto. Porque tenho momentos de alegria. De confusão. De tristeza. De reflexão. De euforia. De não saber quem sou. De saber exatamente quem sou. De querer saber quem me tornarei. Ou se já me tornei. Escrever, porém, é uma tarefa árdua. Quando o ato de colocar as palavras em uma tela ou um papel é, ainda, condicionado a um estado de espírito, raramente o texto sai com facilidade. Escrevo melhor em dias nublados. Por que?

Vivo desejando e vendo a poesia nas pequenas coisas. Sempre foi assim. Por que, então, deixar de enxergá-la agora? Frente ao panorama atual que vivemos, você pode dizer que é mais difícil ter o olhar afinado – ou animado – para tais coisas. Mas, replico que é ainda mais necessário saber tirar, destas pequenas coisas do dia a dia, a poesia. Afinal, vivemos, diariamente, praticamente o mesmo ritual. Fazemos os mesmos caminhos, com algumas exceções, vemos as mesmas pessoas, acordamos mais ou menos nos mesmos horários.

É a observação a mola mestra da vida. A poesia das coisas pode não ser o mote principal da vida, mas deve nos mover. A rotina não precisa ser um terror. Nela também há beleza. Basta querermos. Soa clichê, como a própria rotina? Sim, pode soar. Mas, a trivialidade tanto pode ser normal, como o próprio conceito implica, quanto encantadora.

Quero viver uma vida nem tão linear. Acho que este é o desejo da maioria. Porém, há de se convir que a sequência repetitiva da vida é a realidade, também para essa maioria. Mas a rotina não precisa ser previsível. É neste percurso que a jornada se faz. Na forma como escolhemos enxergar este caminho. Reclamando, afogamo-nos dentro de nossa própria existência. Não vemos o belo. Por isso, é preciso sorrir para a singela simplicidade das coisas. Procuremos as pequenas brechas luminosas em meio à repetição. E escrevamos, ainda que mentalmente, a poesia da vida.

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Fingir que não dói

“A saudade é nossa alma dizendo para onde quer voltar” (Rubem Alves)

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Sobre Guimarães

Eu ia triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais-de-trem…

Guimarães Rosa

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Sobre o poço

Quando se chega ao fundo do poço?
Será o fundo do poço quando não se consegue dizer o que pensa?
Ou será o fundo do poço quando deixamos de pensar?
Viver com um nó na garganta, será o fundo do poço?
Ou o fundo do poço acontece quando se desfaz esse nó?
Será que, no fundo do poço, existe um eco?
Ou será o próprio fundo do poço ouvir esse eco todo o tempo?
Amigos existem no fundo do poço?
No fundo do poço quem sabe eles também estão…
Já imaginou se o mundo inteiro está no fundo do poço?
Ou será que, do fundo do poço, não se vê o mundo?
Uma lágrima verdadeira ou um falso sorriso:
Qual te deixa mais perto do fundo do poço?
Afinal. Como saber quando se atinge o fundo do poço?
Será quando você pensa que todos estão neste poço?
Dá pra tomar um impulso, do fundo, do poço?
No fundo, eu poç(ss)o.

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Sobre o de repente

De repente não dá mais tempo de fazer aquela surpresa. Não dá mais pra mandar aquela mensagem, que deveria ter sido espontaneamente enviada com os dizeres “Eu te amo”, “Me perdoe”, “Você é muito importante” ou “Estou com saudades”. Não vai dar mais pra agradecer ao outro pelo companheirismo nos momentos difíceis. Não vai adiantar parar de focar nos defeitos e no que havia de ruim e pensar em tudo de bom. Em todas as qualidades. No carinho. No amor. Nas risadas dadas. Na falta de cobrança de melhores perspectivas. Na paciência.

De repente a distância vai tornar mais difícil lembrar das covinhas no rosto, do jeito que os olhos se fechavam quando sorria, do toque de esperança e de força nos momentos ruins. Não vai ser possível planejar um encontro especial. Aquele momento único: Simples, mas incrível, porque teria sido pensado para aquela pessoa.

De repente vai faltar aquele número na agenda para desabafar. Para reclamar da vida, compartilhar uma piada ou só falar um oi. Não se preocupe, você vai sobreviver. Todo mundo sobrevive. De repente é melhor mesmo não pensar em tudo o que poderia ter sido feito.

De repente não foi tão de repente assim. Mas já não vai adiantar perceber.

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